Alinhada ao Acordo de Paris, indústria brasileira do cimento lança seu posicionamento sobre o tema
A indústria brasileira do cimento fez na sexta-feira (27/11), por meio da Presidência da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) e do SNIC (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento), o lançamento oficial do seu posicionamento sobre a Precificação do Carbono, iniciativa em debate no país e que integra os esforços globais para reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
Pioneiro, no Brasil, no tratamento de questões ambientais, o setor de cimento é amplamente favorável a uma economia de baixo carbono e propõe que uma eventual precificação deve considerar que:
• A inclusão do setor em instrumento de precificação deve considerar também o contexto internacional;
• Esforços históricos devem ser levados em conta;
• A sobreposição de mais de um instrumento de precificação de carbono deve ser evitada;
• Os esforços de redução de emissões devem ocorrer em todos os setores econômicos;
• A política de precificação de carbono deve ser precedida por um sistema de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV);
• Deve-se priorizar sistemas de precificação via mercado, em detrimento da taxação;
• Uma agenda de implementação gradual deve ser discutida;
• Fugas de carbono devem ser evitadas;
• Instrumentos de fomento a tecnologias e processos mais eficientes devem ser considerados.
A ABCP e o SNIC apresentaram nesta sexta-feita (27/11/2020), em evento virtual com cerca de três horas de duração, o Roadmap Tecnológico do Cimento e Coprocessamento para os principais stakeholders do setor nas regiões Norte e Nordeste do País, público formado especialmente por associadas, empresas da cadeia produtiva do cimento, autoridades públicas e meio técnico e acadêmico.
O encontro foi aberto e encerrado pelo presidente da ABCP/SNIC, Paulo Camillo Penna, e teve no diretor de Comunicação da ABCP, Hugo Rodrigues, o mestre de cerimônias. “Foi um exercício de inteligência que tivemos aqui”, disse o presidente da ABCP e SNIC, que citou os avanços significativos na relação entre indústria, autoridades e universidades e a recente aprovação da Resolução Conama 499/20, que cobriu 95% das proposições do setor.
O projeto Roadmap, elaborado pela ABCP e pelo SNIC com apoio de diversas entidades nacionais e internacionais, traça as principais diretrizes e ações da indústria brasileira do cimento para a redução das suas emissões de CO2 em um horizonte que vai até 2050. O documento já havia sido apresentado em 2019, porém em eventos presenciais, ao Governo Federal, na sede da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), e nas federações da indústria sediadas em Belo Horizonte (Fiemg), Curitiba (Fiep) e São Paulo (Fiesp).
Norte/Nordeste
O evento apresentado em 2020 – via plataforma Zoom e Canal YouTube devido à pandemia – contou com apoio das associadas Apodi, Brennand e Mizu e foi organizado em dois módulos, que trataram, respectivamente, do Roadmap Tecnológico em si e do Coprocessamento, técnica que utiliza o Combustível Derivado de Resíduos (CDR) para abastecer os fornos das cimenteiras, em substituição aos combustíveis fósseis, que são mais poluentes.
O projeto Roadmap foi apresentado pelo coordenador de Meio Ambiente do SNIC, Gonzalo Visedo, no módulo 1, que contou com o painel “Estratégias de Redução de Emissões, Ações já implementadas e Desafios Futuros”, do qual participaram Fabio Cirilo (Votorantim Cimentos), Seiiti Suzuki (InterCement), Marco Aurélio da Silva (Apodi) e Arnaldo Battagin (ABCP), sob mediação de Marcelo Pecchio, responsável pelo Laboratório de Mineralogia da ABCP.
Aberto pela especialista em coprocessamento Antonia Jadranka Suto (ABCP), a quem coube expor a “Evolução do Coprocessamento e o Novo Ciclo de Crescimento”, o módulo 2 trouxe a debate o painel “Desafios e Oportunidades para a Recuperação de Resíduos Sólidos”, moderado pelo gerente de Relações Institucionais da Associação, Mário William Esper. Participaram deste painel: Alcindo Chruscielski (Mizu), Nelson Viana (LafargeHolcim) e Pedro Carvalho(Brennand).
A etapa de encerramento contou com as palavras de Gilvan Dias, presidente da Administração Estadual do Meio Ambiente do Sergipe (Adema), e Paulo Henrique Lustosa, secretário executivo de Saneamento do Governo do Estado do Ceará, além do presidente Paulo Camillo, que fez o lançamento oficial do posicionamento da indústria do cimento sobre a precificação do carbono no País. Paulo Camillo lembrou que o SNIC acompanha e participa, como membro do Comitê Consultivo, do Projeto PMR – Brasil (Partnership for Market Readiness), parceria entre o Ministério da Economia e o Banco Mundial, que avalia a conveniência de implementação de um sistema de precificação de carbono no País. O projeto, com duração de cerca de quatro anos, deve ser concluído em fins de 2020.
Cerca de 80% da população brasileira vive em áreas urbanas e cada brasileiro produz 383 kg de resíduos domésticos por ano. Além disso, o processo produtivo gera anualmente mais 58 milhões de toneladas de resíduos industriais. Todos esses resíduos (urbanos, industriais e agrícolas) podem substituir matérias-primas para a geração de energia térmica na fabricação de cimento, por meio da técnica do coprocessamento, atividade atualizada pela Resolução Conama 499/20.
O coprocessamento contribui para uma destinação correta e segura dos resíduos, impedindo que sejam descartados no ambiente, em aterros e lixões.
O vídeo, produzido pelo SNIC e pela ABCP, mostra como a indústria do cimento pretende, com o coprocessamento, reduzir 30% de suas emissões de CO2 e substituir 55 milhões de toneladas de combustíveis fósseis até 2050.
Nova resolução federal sobre coprocessamento reflete adequação da legislação ao conceito de economia circular e uso sustentável dos recursos naturais
O Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) aprovou em reunião plenária no dia 28/09/2020 e publicou no “Diário Oficial da União” em 06/10/2020 a Resolução Conama 499/20, que dispõe sobre o licenciamento da atividade de coprocessamento de resíduos em fornos rotativos de produção de clínquer.
A nova resolução – que revoga a Resolução 264, em vigor por mais de 20 anos – reconhece o amadurecimento do conhecimento sobre as operações do coprocessamento e reflete uma adequação da legislação aos conceitos de economia circular, economia de baixo carbono e uso sustentável dos recursos naturais.
A Resolução 499/20 deverá impulsionar o coprocessamento dos mais variados resíduos, todos realizados de forma segura, controlada e integralmente alinhada com os objetivos do País, especialmente no que se refere à PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) e ao Programa Nacional Lixão Zero.
As principais inovações da nova resolução incluem melhorias visando modernizar e agilizar o processo de licenciamento, aumentar a eficiência e eficácia dos controles e da segurança jurídica e permitir o aumento da utilização de combustíveis alternativos, particularmente os resíduos sólidos urbanos.
As principais inovações são:
Controle do processo de combustão pelo THC.
Permissão para coprocessamento de vários materiais, como os medicamentos, materiais vencidos ou fora de especificação, além de permitir o coprocessamento de resíduos de saúde que tenham passado por autoclavagem ou descontaminação biológica.
Exclusão dos critérios de licenciamento dos materiais listados no anexo II, que abrangem principalmente as biomassas, além dos resíduos provenientes do processo de triagem das cooperativas e associações de catadores e triadores de materiais recicláveis submetidos a alguma forma de separação prévia de resíduos recicláveis, e que atendam aos requisitos constantes do forno já licenciado para coprocessamento de CDR.
Exclusão do termo organoclorados e inclusão de lista com limites para poluentes orgânicos persistentes baseados nas convenções de Estocolmo e Basiléia e no Regulamento Europeu 1021 de 2019.
Licenciamento do forno: inclusão de resíduos baseada no conceito de equivalência.
Permissão de coprocessamento de resíduos não substitutos de matérias-primas e combustíveis, desde que comprovado o ganho ambiental.
Monitoramento contínuo de MP, SOx, NOx, O2 e THC, podendo ser on-line, de acordo com exigência dos órgãos ambientais.
Redução do limite de emissão de Material Particulado.
Inclusão dos limites para os parâmetros: SOx, NOx e dioxinas e furanos.
Em entrevista à CNI, por ocasião da ENAI 2020, presidente da ABCP e SNIC, Paulo Camillo, destaca o papel da indústria no novo modelo de desenvolvimento
A economia circular, modelo que alia desenvolvimento econômico ao melhor uso de recursos naturais, é vista com seriedade pela indústria brasileira. Tratada no Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a economia circular é entendida como uma oportunidade que concilia o uso mais eficiente dos recursos ao aumento da competitividade da indústria.
Pesquisa da CNI feita em 2019 mostra que 76,4% das indústrias brasileiras adotam alguma prática de economia circular, mas 70% delas nunca tinham ouvido falar do tema. O levantamento mostrou que a indústria brasileira tem avançado em práticas como reuso de água, reciclagem de materiais e logística reversa. No entanto, há um enorme potencial a ser explorado para que o país seja protagonista no melhor uso de recursos naturais e em inovação de produtos para ter maior vida útil, além de modelos de negócios que explorem mais novidades, como a virtualização e o compartilhamento de produtos e serviços (acesse aqui o infográfico desta matéria).
O papel da indústria do cimento
Na edição 2020 do ENAI (Encontro Nacional da Indústria), entre 17 e 18 de novembro, a economia circular será novamente objeto de debate no setor industrial e a indústria do cimento tem uma grande contribuição a dar nesse sentido. O setor de cimento há anos encontrou no coprocessamento de resíduos uma fonte alternativa ao coque – subproduto do refino de petróleo – para a produção de energia, que representa 50% dos custos do segmento. Hoje, o nível de substituição do coque por resíduos chega a cerca de 17% e a projeção é chegar a 55% até 2050.
Entre os materiais coprocessados estão cerca de 65 milhões de unidades de pneus por ano e biomassas típicas de cada região, como açaí, casca de arroz, casca de babaçu, cavaco de madeira, além de resíduos industriais e lixo doméstico. “Isso faz com que o Brasil seja o país com a menor emissão de CO2 por tonelada de cimento do mundo”, destaca o presidente da ABCP e do SNIC, Paulo Camillo Penna, entrevistado pela CNI, por ocasião do ENAI 2020.
Paulo Camillo explica que, nos últimos 30 anos, o setor conseguiu reduzir significativamente as emissões de CO2 por tonelada de cimento. Em 1990, emitia 700 quilos de CO2 por tonelada; em 2014, chegou a 564 quilos por tonelada; e hoje emite 520 quilos por tonelada. “O setor está com a meta de reduzir as emissões para 375 quilos de CO2 por tonelada de cimento até 2050, em linha com o Acordo de Paris”, declara o presidente da ABCP. Esse compromisso está no Roadmap Tecnológico do Cimento, lançado em 2019. Para isso, é fundamental estender o uso de resíduos na geração de energia térmica e o setor se articula com os governos estaduais para alinhar normas de licenciamento ambiental com a resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), recentemente aprovada, que estabelece critérios para o coprocessamento de resíduos.
“Precisamos dinamizar o coprocessamento de resíduos, uma prática disseminada em diversos países, que aumenta a competitividade do setor e está integrada à economia circular e à Indústria 4.0. O Brasil é um país que ainda enterra energia”, diz Paulo Camillo. “Precisamos acabar com essa prática. Além disso, a utilização do resíduo doméstico como fonte de energia contribuirá para a erradicação dos lixões, presentes em mais de 3 mil municípios brasileiros, e contribuirá para o aumento da vida útil de aterros sanitários”, acrescenta.
Otacílio Costa é um município situado na Serra Catarinense cuja economia gira em torno da produção e exportação de papéis. A principal matéria-prima é a madeira transportada pela rodovia SC 114 com extensão de 32,20 km. Devido ao tráfego pesado gerado por esta atividade industrial o pavimento asfáltico existente estava completamente comprometido, ocasionando inúmeros transtornos e prejuízos.
Os técnicos do Governo do Estado de Santa Catarina estudaram várias alternativas de pavimentação para a restauração com o objetivo de obter uma solução que pudesse proporcionar maior durabilidade e redução nas operações de manutenção. Assim optou-se pelo pavimento de concreto com whitetopping que adota o pavimento existente como sub-base para o novo pavimento em concreto. O pavimento de concreto resiste ao tráfego intenso de veículos de carga e ao ataque químico dos óleos que porventura vazem dos caminhões, proporcionando custo de manutenção reduzido se comparado com outras opções de pavimento.
Neste relato de experiência, os engenheiros Dejalma Frasson Jr. e Alexsander Maschio (ambos da ABCP), Diego Lang (Consórcio SBS – Dalba) e Carlos Roberto Giublin (CRG Engenharia) tratam dessa obra emblemática para o pavimento de concreto, publicada originalmente na revista Estradas, da Sociedade dos Técnicos Universitários do DAER, edição 25 – outubro de 2020.