





Os esforços visando a erradicação dos lixões e o fortalecimento da economia circular no país ganharam na manhã desta quinta-feira, 15/07, mais um suporte, desta vez envolvendo a indústria de cimento e consórcios públicos intermunicipais do Estado de Minas Gerais. Com a presença de aproximadamente 40 participantes, dos quais 8 painelistas e 28 dirigentes de consórcios mineiros convidados, a ABCP promoveu o webinar “Destinação Sustentável para os Resíduos Sólidos Urbanos – Tecnologia de Coprocessamento”, evento referenciado no edital de chamada pública elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente, cujo objetivo é a seleção de projetos para a melhoria da gestão de resíduos sólidos no Estado de Minas.
Os recursos anunciados no edital, disponibilizados pelo programa Lixão Zero, somam 100 milhões de reais e o prazo para apresentação de projetos se encerra no final do mês. Os consórcios contemplados terão o compromisso de operar as usinas de triagem e a responsabilidade de encerrar os lixões nos municípios beneficiados pelo projeto. Dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente apontam que Minas tem, hoje, 406 municípios (33% da população) que integram um ou mais consórcios públicos intermunicipais atuantes na gestão de resíduos sólidos. Foram convidados ao evento ao menos seis consórcios cujos territórios possuem fábricas de cimento: CIGEDAS, CISREC, CISAB, CODANORTE, CONSANE e CORESAB.
O evento foi aberto e conduzido por Mário William Ésper, diretor de Relações Institucionais da ABCP, que destacou o “intenso trabalho junto aos órgãos de governo no sentido de colaborar para a destinação adequada dos resíduos sólidos urbanos”. Ele lembrou que 25% de todo o cimento consumido no Brasil provém de Minas Gerais, o que já representa um grande parque consumidor de CDRU (Combustível Derivado de Resíduo Urbano). “A indústria utiliza o coque de petróleo para produzir o cimento. Diante das várias ações da indústria para mitigar a emissão de gases de efeito estufa, uma das medidas é utilizar combustíveis alternativos. O objetivo da ABCP é formar uma parceria com os consórcios presentes para enfrentar esse desafio”, enfatizou Mário William.
Daniel Mattos, diretor de Coprocessamento da ABCP, destaca que a apresentação da tecnologia do coprocessamento aos consórcios convidados está em linha com o edital e o programa, pois pode contribuir para a melhoria do gerenciamento de resíduos sólidos urbanos na região. O governo pretende que o recurso seja utilizado na construção de unidades de tratamento de resíduos em três categorias: reciclável, orgânicos e CDRU – este utilizado pela indústria em substituição a combustíveis fósseis, como o coque de petróleo. “Esta é uma oportunidade para a implantação de instalações de reciclagem e requalificação de lixo urbano, colaborando para a erradicação dos lixões”, explica Daniel. Em sua explanação, ele lembrou que o Brasil gera 79,1 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) por ano, sendo que 45% desse volume têm disposição inadequada. Em contrapartida, Minas gera anualmente 1,6 milhão de toneladas de CDRU (resíduos não recicláveis) por ano, o que pode ser aproveitado pelas 13 plantas industriais integradas do Estado.
O encontro contou também com uma apresentação de Juliano Menezes, gerente da Geocycle, empresa do grupo LafargeHolcim, sobre “Planta de triagem / CDRU – Etapas do processo e cases de sucesso”, oportunidade em que o executivo mostrou o exemplo bem-sucedido de uma instalação industrial do grupo na Costa Rica. Ao lado de Menezes, o setor esteve representado por três diretores da indústria de cimento com unidades produtoras em Minas Gerais: Cristiano Ferreira (Intercement), Francisco Chaves Jr (Votorantim) e Pedro Carvalho (Cimento Nacional). Ao término das apresentações, todos interagiram com representantes dos consórcios para sanar dúvidas e reforçar potenciais parcerias.
O coprocessamento é um forte aliado da economia circular. Por meio dessa tecnologia, os resíduos industriais, agrícolas e sólidos urbanos podem ser reinseridos na cadeia produtiva, em substituição aos combustíveis fósseis. Além disso, ocorre uma substituição de matérias-primas e o que não é convertido em energia é incorporado ao clínquer. A solução traz inúmeras vantagens, como: preservação de recursos naturais e matérias-primas, redução de gases de efeito estufa, geração de empregos, erradicação dos lixões, melhoria da saúde pública, inclusive com economia de gastos nessa área, e aumento da vida útil dos aterros sanitários.
>> Assista ao vídeo do evento no canal da ABCP no YouTube:






Texto e fotos: CNI
A indústria tem participação de 20,4% no PIB brasileiro. Mesmo assim, os processos industriais são responsáveis por apenas por 6% das emissões nacionais de gases de efeito estufa. Boa parte da explicação para esse feito está no forte uso de fontes renováveis na geração de energia e a acelerada modernização tecnológica do parque industrial brasileiro, com máquinas e equipamentos cada vez mais eficientes e que consomem menos energia.
Enquanto a participação de renováveis na geração elétrica dos países da OCDE está em torno de 18% a 27%, no Brasil as fontes renováveis representam 83% da matriz elétrica.
“Há décadas, a sustentabilidade está na estratégia da indústria brasileira, que não só usa a matriz energética a seu favor, mas está constantemente se atualizando para aumentar sua eficiência”, explica Mônica Messenberg, diretora de Relações Institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Para mostrar os feitos do setor em prol da transição para uma economia de baixo carbono, a CNI fez um levantamento de iniciativas e indicadores de seis setores – cimento, alumínio, vidro, papel e celulose, químico e aço –, responsáveis por 85% das emissões do setor.
“Mesmo emitindo menos CO2 equivalente na comparação com empresas de outros países, a indústria brasileira vem construindo metas cada vez mais ambiciosas”, destaca Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, responsável pelo levantamento. Confira os principais destaques do relatório:
A indústria cimenteira, globalmente, responde por cerca de 7% de todo o CO2 equivalente emitido pela ação humana. Já no Brasil, a participação do setor nas emissões nacionais é de 2,3%, cerca de um terço da média mundial.
O esforço de redução das emissões no setor se deve a três fatores, principalmente: uso de matérias-primas alternativas ao clínquer – chamadas de adições -, como escórias siderúrgicas, cinzas de termoelétricas e pó de calcário; uso de combustíveis alternativos, como biomassas e resíduos; e medidas de eficiência energética, ao investir em linhas e equipamentos de menor consumo térmico e elétrico. Essas medidas foram responsáveis pela redução de 18% na intensidade de carbono do setor de 1990 a 2019, enquanto a produção de cimento cresceu cerca de 220%.
Mesmo sendo a que apresentou melhores resultados na redução de emissões nos últimos anos, a indústria de cimento tem metas ainda mais ambiciosas para o futuro. O setor lançou em 2019 o Roadmap Tecnológico do Cimento, em parceria com a Agência Internacional de Energia (IEA), o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD) e a Corporação Financeira Internacional (IFC) – do Banco Mundial.
A meta é reduzir as emissões atuais – que já são referência internacional – em mais 33% até 2050. “Com isso evitaríamos lançar 420 milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera”, prevê Paulo Camillo Penna, presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC).
Segundo Penna, as metas da indústria cimenteira brasileira estão plenamente alinhadas às do Acordo de Paris. Entre as principais iniciativas do setor está elevar o uso de adições de 32% para 48% e substituir o uso de combustíveis fósseis por alternativos dos atuais 23% para 55% até 2050. “Os níveis da Europa de uso de combustíveis alternativos já estão em cerca de 50% hoje”, comenta Penna.
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A economia circular, modelo que alia desenvolvimento econômico ao melhor uso de recursos naturais, é vista com seriedade pela indústria brasileira. Tratada no Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a economia circular é entendida como uma oportunidade que concilia o uso mais eficiente dos recursos ao aumento da competitividade da indústria.
Pesquisa da CNI feita em 2019 mostra que 76,4% das indústrias brasileiras adotam alguma prática de economia circular, mas 70% delas nunca tinham ouvido falar do tema. O levantamento mostrou que a indústria brasileira tem avançado em práticas como reuso de água, reciclagem de materiais e logística reversa. No entanto, há um enorme potencial a ser explorado para que o país seja protagonista no melhor uso de recursos naturais e em inovação de produtos para ter maior vida útil, além de modelos de negócios que explorem mais novidades, como a virtualização e o compartilhamento de produtos e serviços (acesse aqui o infográfico desta matéria).
Na edição 2020 do ENAI (Encontro Nacional da Indústria), entre 17 e 18 de novembro, a economia circular será novamente objeto de debate no setor industrial e a indústria do cimento tem uma grande contribuição a dar nesse sentido. O setor de cimento há anos encontrou no coprocessamento de resíduos uma fonte alternativa ao coque – subproduto do refino de petróleo – para a produção de energia, que representa 50% dos custos do segmento. Hoje, o nível de substituição do coque por resíduos chega a cerca de 17% e a projeção é chegar a 55% até 2050.
Entre os materiais coprocessados estão cerca de 65 milhões de unidades de pneus por ano e biomassas típicas de cada região, como açaí, casca de arroz, casca de babaçu, cavaco de madeira, além de resíduos industriais e lixo doméstico. “Isso faz com que o Brasil seja o país com a menor emissão de CO2 por tonelada de cimento do mundo”, destaca o presidente da ABCP e do SNIC, Paulo Camillo Penna, entrevistado pela CNI, por ocasião do ENAI 2020.
Paulo Camillo explica que, nos últimos 30 anos, o setor conseguiu reduzir significativamente as emissões de CO2 por tonelada de cimento. Em 1990, emitia 700 quilos de CO2 por tonelada; em 2014, chegou a 564 quilos por tonelada; e hoje emite 520 quilos por tonelada. “O setor está com a meta de reduzir as emissões para 375 quilos de CO2 por tonelada de cimento até 2050, em linha com o Acordo de Paris”, declara o presidente da ABCP. Esse compromisso está no Roadmap Tecnológico do Cimento, lançado em 2019. Para isso, é fundamental estender o uso de resíduos na geração de energia térmica e o setor se articula com os governos estaduais para alinhar normas de licenciamento ambiental com a resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), recentemente aprovada, que estabelece critérios para o coprocessamento de resíduos.
“Precisamos dinamizar o coprocessamento de resíduos, uma prática disseminada em diversos países, que aumenta a competitividade do setor e está integrada à economia circular e à Indústria 4.0. O Brasil é um país que ainda enterra energia”, diz Paulo Camillo. “Precisamos acabar com essa prática. Além disso, a utilização do resíduo doméstico como fonte de energia contribuirá para a erradicação dos lixões, presentes em mais de 3 mil municípios brasileiros, e contribuirá para o aumento da vida útil de aterros sanitários”, acrescenta.
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Com a participação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quatro importantes entidades setoriais – ABCP (cimento portland), Abetre (tratamento de resíduos e efluentes), Abiogás (produção e aproveitamento do biogás) e Abrelpe (limpeza pública) – lançaram nesta terça-feira (02/06/2020), a FBRER (Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos), que tem como objetivo impulsionar a captação de energia a partir de rejeitos depositados em aterros sanitários. A assinatura do Acordo de Cooperação para Recuperação Energética de Resíduos foi firmada pelas entidades e o MMA em uma reunião virtual da qual participaram mais de 400 pessoas.
A iniciativa é um marco histórico para os esforços de destinação mais sustentável e ambientalmente adequada dos resíduos do Brasil. O acordo de cooperação buscará, entre outras iniciativas, coordenar esforços para a remoção de barreiras regulatórias que dificultam o aproveitamento mais intenso dos resíduos. Além disso, pretende viabilizar projetos para a recuperação energética de resíduos sólidos e promover sua integração ao mercado de energias limpas e renováveis. Isso será possível com a conjugação de esforços multissetoriais para o desenvolvimento de um trabalho institucional e de estudos técnicos, com propostas conjuntas de políticas públicas para a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e das estratégias de recuperação energética dos resíduos orgânicos. O trabalho das entidades, juntamente com os esforços do governo e da sociedade, fará com que as soluções sejam colocadas em prática de maneira mais rápida e com a devida sustentabilidade ao longo do tempo.
O presidente da ABCP e do SNIC, Paulo Camillo Penna, declarou que, após alguns meses de conversas, estava “extremamente satisfeito pelo lançamento da FBRER, que conjuga visões em comum entre quatro grandes associações com enorme abrangência em seus respectivos mercados no Brasil”. Ele lembrou que a indústria brasileira –referência internacional em emissões de CO2 (12% menos que a média global do setor) – lançou há um ano o Roadmap Tecnológico do Cimento 2020 / 2050, no qual as fábricas procuram formas de substituir o combustível fóssil, no caso, o coque de petróleo, por combustíveis renováveis – especialmente o CDRU (Combustível Derivado de Resíduos Urbanos), pauta deste acordo. E reafirmou a importância do coprocessamento, adotado desde os anos 90, responsável hoje por promover anualmente a destinação correta de 60 milhões de pneus, “o equivalente a 1,3 vezes o perímetro da Terra”, acrescentou.
Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe, afirmou que o país gera 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, conforme dados do panorama setorial 2018/2019, volume que poderia gerar 14,5 gigawatts-hora por ano de eletricidade – o que equivale a 3% do consumo nacional de energia elétrica.
Para Alessandro Gardemann, presidente da Abiogás, o potencial de aproveitamento alcança 5 bilhões de metros cúbicos de metano por ano. O setor possui cerca de 300 megawatts (MW) de potência instalada, mas essa capacidade poderia se multiplicar se houvesse a destinação adequada dos resíduos. No entanto, afirmou, “apenas 42% do lixo urbano coletado atualmente vai para locais adequados e podem ter algum tipo de processamento. O resto é depositado em lixões, que deveriam ter acabado em 2014, se a Política Nacional de Resíduos Sólidos tivesse sido seguida à risca”.
O investimento em aterros sanitários regionais e na recuperação energética podem eliminar desperdícios e fortalecer a economia circular, afirmou o presidente da Abetre, Luiz Gonzaga. “Com um ano de funcionamento, os aterros que substituirão esses depósitos de lixo a céu aberto estarão aptos a produzir metano e, com as usinas de biogás, podemos ter uma produção elétrica quase dez vezes superior à atual”.
Para Paulo Camillo, a recuperação energética de resíduos reduz passivos ambientais, apoia a geração de empregos e contribui com a saúde pública. No caso da indústria, especificamente, os resíduos podem substituir parte do combustível fóssil – e dolarizado – que alimenta a chama dos fornos, transformando argila e calcário em clínquer (matéria-prima do cimento). “Hoje, apenas 17% da energia térmica para essa finalidade vem de fontes alternativas ao coque”, observa o presidente da ABCP. “Utilizando o lixo, as companhias poderão substituir até 80% do combustível usado hoje no processo produtivo”, completou.
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerou que o acordo de cooperação “é um passo significativo para o avanço da questão do resíduo sólido em âmbito nacional”. Ele elogiou as propostas de cada entidade e agradeceu diretamente à ABCP e ao seu presidente pela disposição de sempre colaborar para a solução de problemas. “Assim foi com o advento do óleo no Nordeste e agora com a substituição do coque de petróleo pelos resíduos, com o seu coprocessamento nas indústrias. Os clusters referentes a essa iniciativa são muito importantes para alavancarmos respostas concretas”, disse o ministro.
Assista à live de lançamento da FBRER.
Quase 400 pessoas acompanharam nesta terça-feira (05/05/2020) a videoconferência do “5º Ciclo de Tecnologias de Tratamento de Resíduos Sólidos”, organizada pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (Sima) do Estado de São Paulo, por meio do Comitê de Integração de Resíduos Sólidos (CIRS), e a Sabesp, por meio de sua Diretoria T.
Durante o encontro foram apresentados aspectos legais, tecnologias de processamento, viabilidade técnica e financeira, além dos benefícios ambiental e social no uso do coprocessamento dos resíduos pelas fabricas de cimento.
“Transformar resíduos em recurso é a chave para uma economia circular, tendo a indústria do cimento muito a contribuir na geração de soluções sustentáveis para a sociedade”, comentou o executivo da ABCP, Daniel Mattos.
Atualmente, o Brasil produz 78 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. “A experiência dos países europeus mostra que o aproveitamento energético caminha junto com a reciclagem dos resíduos, as questões são complementares”, complementou o diretor da Votorantim, Eduardo Porciúncula.
“A única maneira de alcançar as metas de crescimento no uso de combustível derivado de resíduos é através do uso conjunto de CDRI e CDRU, de forma a assegurar o desempenho das unidades industriais”, destacou o executivo da Intercement, Alexandre Citvaras.
O encontro foi mediado pelos coordenadores do CIRS, José Valverde e Ivan Mello; e contou também com a participação do secretário executivo da Sima, Luis Ricardo Santoro, e do presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), Paulo Camillo.
“Não tem cabimento jogar fora a quantidade de material servível que estamos desperdiçando, precisamos utilizar todo esse potencial no aproveitamento e amadurecimento de uma economia circular e as soluções passam por diferentes modelagens, de acordo com cada região do Estado”, disse o secretário, Marcos Penido.
Fonte: Portal AEC Web | BR – 10/03/2020
A indústria nacional do cimento, que apresenta um dos menores índices mundiais de emissão de CO2 do setor, aprofunda medidas para reduzir sua pegada de carbono. O estudo Roadmap Tecnológico do Cimento, preparado pelo SNIC e ABCP em conjunto com entidades brasileiras e internacionais, coordenado pelo professor José Goldemberg, traça os caminhos. Nesta entrevista ao Portal AECweb, o presidente da ABCP, Paulo Camillo Penna, fala sobre este e outros assuntos, como o impacto que a recessão econômica do país causou às cimenteiras e as expectativas positivas do setor para 2020.
AECweb – O que é o estudo Roadmap Tecnológico do Cimento?
Paulo Camillo Penna – Este estudo mapeia a situação atual e as tendências futuras da indústria brasileira do cimento. Se suas trajetórias de crescimento e grau de desenvolvimento tecnológico continuassem sem intervenção, em um cenário de referência climático (aumento de 6°C), as emissões absolutas decorrentes da produção de cimento no Brasil atingiriam cerca de 66 Mt (milhões de toneladas) de CO2 em 2050, um aumento de 64% em relação aos níveis de 2014 (40 Mt CO2). A partir desse cenário, o Roadmap propõe diferentes alternativas técnicas capazes de reduzir essas emissões a patamares condizentes com o de menor impacto climático, limitando o aumento da temperatura global em até 2°C em longo prazo.
AECweb – Qual a matriz energética empregada para a produção de cimento no país?
Paulo Camillo – Em 2014, ano de referência do Roadmap, a matriz energética da indústria brasileira de cimento era composta de 85% de coque de petróleo e 15% de combustíveis alternativos. A participação de combustíveis fósseis não renováveis na produção de cimento deverá decrescer de 85% para 45% no “Cenário 2°C”, em função do uso crescente de resíduos e biomassas. O aumento no uso de combustíveis alternativos reduziria cerca de 55 Mt de CO2, ou 13% da mitigação cumulativa de emissões de CO2 até 2050 no “Cenário 2°C”, em comparação com o “Cenário 6°C”.
AECweb – Qual a quantidade de gás carbônico emitida, hoje, por tonelada de cimento produzido?
Paulo Camillo – Em 1990, as emissões específicas do cimento eram 700 kg CO2/t cimento. Devido aos investimentos e esforços da indústria brasileira de cimento, em 2014 (ano base de referência do Roadmap) as emissões foram reduzidas para 564 kg CO2/t cimento, o equivalente a 18%, enquanto a produção de cimento nesse mesmo período aumentou 277%. Graças fundamentalmente à revisão da norma de cimento, antecipamos para 2019/2020 a meta de 2025, ou seja, a redução para 540 kg CO2/t cimento.
AECweb – Quais dados apoiam o fato de a indústria cimenteira nacional ser considerada referência internacional na emissão de CO2?
Paulo Camillo – Globalmente, as emissões de CO2 da indústria do cimento representam cerca de 7% das emissões totais produzidas pelo homem. No Brasil, em função de ações que vêm sendo implementadas há anos, esta participação é praticamente um terço da média mundial, ou 2,6%, segundo o Inventário Nacional de Gases de Efeito Estufa.
AECweb – O cimento nacional tem passado por processo de evolução de produção e de qualidade?
Paulo Camillo – Investimento em combustíveis alternativos, equipamentos mais eficientes, melhoria de processos e atualização da norma são as principais ações realizadas pela indústria do cimento. Em julho de 2018, finalizamos a modernização da norma de cimento brasileiro tendo como referência a norma europeia, com ampliação significativa de filler calcário, o que propiciou, entre outras vantagens, a redução de emissão de CO2 do nosso produto. Além disso, a partir do mapeamento brasileiro de fontes alternativas de energia, foi possível incorporar novos insumos energéticos que irão favorecer não só a redução de emissões, mas também a geração de renda de populações que se ocupam da exploração destes produtos, bem como eliminação de passivos ambientais decorrentes desse uso. É o caso de caroço de açaí, casca de babaçu entre outros. Importante observar que a indústria do cimento tem avançado no processo de industrialização do chamado CDRU (Combustível Derivado de Resíduo Urbano), que tem por base o lixo doméstico. Esse movimento contribui significativamente para a erradicação dos lixões, ampliação da vida útil dos aterros sanitários existentes e redução das emissões, não só advindas do processo produtivo do cimento, mas também daquelas que têm origem nesses locais como o metano, gás infinitamente mais tóxico que o CO2. Com um ambiente macroeconômico mais auspicioso, a expectativa do SNIC para 2020 é de um crescimento no consumo acima de 3%. A retomada do mercado imobiliário vem sendo o grande influenciador da melhora no consumo de cimento.
AECweb – Quais os benefícios que a evolução da qualidade do cimento trouxe para o concreto?
Paulo Camillo – O processo de qualificação do principal insumo para o concreto propiciará um produto ambientalmente de melhor qualidade e a redução dos riscos advindos no momento em que o mundo busca uma economia de baixo carbono, atenuando os impactos ambientais. Fatores como esses ampliam a competitividade do produto num ambiente de grande disputa de mercado com concorrentes como aço, madeira e outras soluções nas edificações.
AECweb – Em 2019, o setor apresentou crescimento?
Paulo Camillo – Em 2019, o setor de cimento vem apresentando crescimento de 3,4% no acumulado do consumo até novembro. O melhor desempenho do ano de 2019 está fortemente ligado à recuperação do setor imobiliário. O número de novos lançamentos residenciais acumula aumento de 17% até setembro, comparado ao mesmo período de 2018. A quantidade de imóveis novos financiados pelo SBPE (Sistema Brasileiros de Poupança e Empréstimo) também apresentou um bom resultado, com crescimento de 45% na comparação janeiro a setembro de 2019 com janeiro a setembro de 2018. A melhora do ambiente macroeconômico possibilitou essa retomada. A inflação baixa e controlada, aliada às novas linhas de financiamento com juros mais atrativos e uma nova modalidade, com indexador de inflação (INPC) mais juros aqueceram o mercado imobiliário.
AECweb – Como foi o desempenho de produção e vendas na última década?
Paulo Camillo – A partir de 2004, diversos fatores colocaram a indústria do cimento de volta no rumo do crescimento. Além do ambiente macroeconômico favorável, o aumento da renda real e da massa salarial real e a redução dos juros e da inflação, a expansão do crédito imobiliário por parte do governo e por bancos privados e o objetivo governamental de crescimento dos investimentos em obras de infraestrutura foram fundamentais para a alavancagem da construção civil e, consequentemente, do consumo de cimento. Concorreu de forma decisiva para esta recuperação o chamado marco regulatório imobiliário, através da Lei n°10.931/2004 e da Resolução n° 3.177 do Banco Central. Tais medidas trouxeram um melhor ordenamento jurídico no setor da construção imobiliária e possibilitaram a capitalização das construtoras e incorporadoras no mercado acionário, bem como o retorno dos bancos privados ao financiamento imobiliário. Programas do governo, como o Minha Casa Minha Vida e o PAC, também impulsionaram o setor da construção civil, tanto na parte habitacional quanto na de infraestrutura. Entre 2004 e 2014, o consumo de cimento mais que dobrou, saindo de 35 milhões de toneladas para mais de 70 milhões, um movimento sustentável e presente em todas as regiões do país. Este movimento tornou o Brasil o 4° maior consumidor de cimento no mundo, atrás apenas da China, Índia e EUA.
AECweb – Em seguida, veio a crise econômica.
Paulo Camillo – Sim, o país passou pela pior crise da economia da sua história. Depois de um baixo crescimento econômico em 2014, de apenas 0,5%, a economia brasileira entrou em uma recessão sem precedentes. Em 2015, o PIB encolheu 3,8%, e em 2016, a queda foi de 3,5%, acumulando recuo de 7,1% no biênio 2015/16. Em 2017 houve uma pequena recuperação, quando o PIB subiu 1%. A crise atingiu mais fortemente o mercado imobiliário e o setor de infraestrutura, este último ainda agravado pela Operação Lava Jato. A restrição dos gastos públicos em construção, o aumento da taxa de juros e da inflação e a queda da massa salarial levou a cadeia da construção para uma recessão profunda, que inviabiliza a tomada de empréstimos para o financiamento de investimentos.
AECweb – Quais os números do impacto da recessão sobre o setor do cimento?
Paulo Camillo – A atividade da construção civil foi 16% menor no acumulado dos anos 2015 a 2017. Na indústria do cimento não poderia ser diferente, com retração de 26,5% no consumo do insumo nesse mesmo período, atingindo 52,9 milhões de toneladas, no final de 2018, o que representa retorno do nível de consumo de 2009. Esse panorama se torna dramático quando se verifica que a capacidade ociosa atingiu inédito nível de 47%. Com a ociosidade alta, há elevação dos custos fixos unitários, restringindo a capacidade de investimentos ou até mesmo fazendo com que algumas empresas optem por fechar suas fábricas, retirando fatores produtivos do mercado. Mais grave ainda, a profundidade da recessão pode comprometer a viabilidade econômica de algumas empresas, fazendo com que saiam definitivamente do mercado.
AECweb – Quais as perspectivas para 2020?
Paulo Camillo – Com um ambiente macroeconômico mais auspicioso, a expectativa do SNIC para 2020 é de um crescimento no consumo acima de 3%. A retomada do mercado imobiliário vem sendo o grande influenciador da melhora no consumo de cimento. Para um crescimento mais robusto e sustentável, é preciso a reversão da contínua queda do investimento em infraestrutura, cuja participação na venda de cimento já correspondeu a 25% e, hoje, representa menos de 10%.
Sobre Paulo Camillo Penna
Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC-MG, é presidente-executivo do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) e da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP). Possui vivência de mais de 30 anos em altos cargos executivos no setor público, empresas e entidades nacionais representativas de diversos segmentos, tais como, presidente da Fundação TV Minas – Cultural e Educativa de Minas Gerais; diretor da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), diretor Executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas); diretor e, posteriormente, vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Extração do Ferro e Metais Básicos (Sinferbase); presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e vice-presidente do Grupo AES Brasil. Integrante de conselhos e fóruns empresariais no país e no exterior como membro titular do Conselho de Infraestrutura (Coinfra) e do Conselho de Assuntos Legislativos (COAL) da Confederação Nacional da Indústria (CNI); membro convidado do World Economic Forum (WEF); membro titular do Departamento da Indústria da Construção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Deconcic), entre outros. Eleito diretor da FIESP para o triênio 2018 – 2020. Tem ativa participação na mídia nacional e internacional.