Como a indústria brasileira de cimento pode reduzir as emissões?

Matéria por João Monteiro

Estima-se que a indústria do cimento represente cerca de 7 a 8% das emissões globais de CO2. O principal vilão é o clínquer – principal componente do cimento portland – sozinho responde por mais de 90% dessas emissões dentro do processo industrial. A maior parte dela (cerca de 60 a 65%) vem da reação química a temperaturas acima de 1400ºC que transformam o calcário em cal para formar os silicatos que compõem o clínquer.

A principal medida para reduzir as emissões dessa indústria é a redução do clínquer, tarefa difícil já que a substância é o “coração” do cimento Portland – suas propriedades determinam as características de resistência, tempo de pega e durabilidade do material. Atualmente, o volume do clínquer no cimento está em torno de 80% (na média global) e varia de acordo com o tipo do cimento.

A indústria brasileira já trabalha abaixo da média global, com 70% de clíquer no cimento, como aponta Vanderley John, professor titular da Universidade de São Paulo (USP). O desafio que ele propõe para o mercado nacional é baixar esse volume para 50%, o que ele coloca como um desafio tecnológico. “Para atingir essa média, será necessário desenvolver cimentos com 20 a 30% de clínquer”, diz John, que também é coordenador do Hubic, centro de inovação da Escola Politécnica da USP em parceria com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

Como reduzir o clínquer do cimento

A indústria cimenteira tem diversas estratégias para diminuir o uso do clínquer, substituindo-o por materiais cimentícios suplementares, sendo os mais comuns são argila calcinada (LC³) e o filler calcário. A escória da indústria siderúrgica e as cinzas volantes (subproduto de usinas termoelétricas a carvão) também são alternativas, mas dependem da disponibilidade de produção próxima às fabricantes de cimento.

A argila calcinada é usada para diminuir a poluição gerada na reação química do clínquer, bem como diminuir o uso da substância no produto final já que a fórmula da LC³ também usa filler calcário. Mas há ressalvas, como alerta John, pois ela exige maior tempo de endurecimento, o que afasta seu uso na indústria da construção pesada, enquanto no mercado consumidor há certo receio pois o cimento com argila calcinada tende a ficar avermelhado.

O custo de produção também é um fator que pesa contra a LC³, pois a fabricante de cimento precisa utilizar outros fornos para produção da argila calcinada. “Significa que o forno que eu estou operando aqui (para a LC³), que pode ser que já não esteja 100% ocupado (para produção do clínquer), vai ser menos ocupado ainda. Então, do ponto de vista de CapEx, acaba sendo problemático.”

John afirma que o Brasil já usa essa alternativa há pelo menos 60 anos. “Nós fazemos o uso da argila calcinada desde os anos 1960. É o único país do mundo que tem essa experiência. Ela é uma tecnologia que tem algumas aplicações, mas ela tem muitos limites. Eu acredito que a gente pode ir muito mais longe com o filler calcário do que a gente tem ido.”

Filler calcário como opção ao clínquer do cimento

A aposta no filler calcário se dá pela sua capacidade de conceder volume à massa do cimento. O professor explica que ele consegue substituir parte da função do clínquer de preencher os espaços entre os grãos de areia, reduzindo então a quantidade da substância poluidora na composição do cimento.

Hoje, John estima que 16% do cimento brasileiro já usa o filler calcário, sendo que alguns poucos fabricantes trabalham com produtos com até 25% de filler na composição. “Eu tenho uma proposta para a indústria trazer um cimento voltado para o mercado de varejo com 30 a 35% de filler”, diz, baseando a proposta em um caso de uso que não precisa de um produto com tanta resistência mecânica.

O professor defende que dá para ir além. “Se fizer um investimento industrial em moagem separada, mudando a produção da fábrica, talvez consiga ir a 40%. Se eu colocar aditivos, que é o que estamos desenvolvendo (no Hubic), poderia ir talvez a 60% de filler no cimento comercial para o setor industrial. Para a indústria pesada com alta resistência inicial.”

Coprocessamento: a aposta da indústria brasileira de cimento para reduzir as emissões de CO2

Gonzalo Visedo, líder de Sustentabilidade e Meio Ambiente do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), afirma que o Brasil é um dos líderes na descarbonização da indústria cimenteira desde 1990. A aposta está no uso de combustíveis alternativos ao coque de petróleo para aquecer os forno, processo chamado de coprocessamento. Segundo dados da ABCP de 2023, 32% da matriz energética do setor era composta por ele, sendo 18% biomassa e 14% resíduos.

A iniciativa ajuda a reduzir a pegada de carbono porque o coprocessamento emite menos CO2 que a queima de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que evita que o resíduo urbano emite gases ainda mais poluentes com a sua decomposição natural, como o metano, até 30 vezes mais poluente que o dióxido de carbono.

Visedo diz que a indústria nacional conseguiu antecipar em cinco anos o índice de 30% de consumo energético alternativo. “O roadmap proposto pela ABCP era chegar em 30% em 2025, número que foi alcançado ainda em 2020. Agora estamos revisando nossas metas porque tínhamos definido alcançar 35% em 2030 e já estamos em 32%”, diz ele, que aponta a meta de alcançar zero emissões (net zero) até 2050.

Desafio logístico para descarbonização do cimento

O desafio para a indústria brasileira do cimento alcançar a meta é logístico. Visedo diz que o produto tem baixo valor agregado e é muito suscetível ao custo do transporte. Portanto, cabe às indústrias encontrarem fornecedores perto de suas fábricas, o que limita as opções tanto para o coprocessamento quanto para a redução do clínquer.

Na Região Sul, por exemplo, uma das opções é o uso da palha do arroz como biomassa, enquanto o Norte usa o caroço do açaí. Fábricas próximas a centros urbanos já apostam mais no uso de resíduos domésticos, que precisam ser separados para a finalidade do coprocessamento. “Neste caso, as empresas fazem consórcios municipais para ter o volume necessário e a gestão de resíduos para ter o beneficiamento do coprocessamento.”

A estratégia é parecida para a redução do clínquer, segundo o executivo do SNIC, então as fábricas de cimento buscam o que está perto, por isso a dificuldade do uso da escória siderúrgica e de cinzas volantes. “No momento em que elas se tornem mais escassas, a gente consegue imprimir uma velocidade menor (para a redução do clínquer.”

O que a indústria brasileira de cimento já está fazendo para reduzir emissões

Individualmente, cada fabricante de cimento tem sua própria estratégia para reduzir suas emissões. A Votorantim Cimentos, por exemplo, fechou 2024 com o índice global de 32% de coprocessamento, enquanto sua operação brasileira alcançou 35%. “A nossa meta é chegar em 53% até 2030”, disse Álvaro Lorenz, diretor global de Sustentabilidade e Desenvolvimento de Produto da empresa, durante o 9º Congresso Brasileiro do Cimento (CBCi).

A empresa também busca diminuir o clínquer na composição de seu cimento. “Nosso fator clínquer cimento fechou com 72 (em 2024) e a nossa meta é chegar em 68 (em 2030). Então, a gente tem nosso World Map 2030, que foi criado em 2020 e a gente segue a cada ano avançando um pouquinho nos 10 países que estamos presentes.”

Matéria publicada em InfraRoi.

 

Vem aí o II Simpósio Brasileiro de Ciência do Cimento, o 9º CBCi e a ExpoCimento 2025

Há menos de três meses dos mais importantes eventos das cadeias de valor do cimento, as principais empresas do mercado já confirmaram a presença como patrocinadoras e expositoras do 9º CBCi – Congresso Brasileiro do Cimento e da ExpoCimento. De 30 de junho a 2 de julho de 2025, autoridades, lideranças empresariais, corpo técnico, pesquisadores e especialistas, nacionais e estrangeiros, estarão reunidos no Golden Hall WTC, em São Paulo.

Esta edição será ainda maior, com público ampliado, mais de 100 palestras, feira de negócios e apresentação das últimas inovações na aplicação do cimento Portland – material predominante e vital para a construção civil. Haverá ainda uma semana de muito conhecimento, inovação e networking no II Simpósio Brasileiro de Ciência do Cimento (SBCC 2025), de 27 de junho a 2 de julho.

Com tema central “A indústria do cimento e seu papel transformador para um mundo ecoeficiente”, o 9º CBCi contará com painéis sobre temas como a transição energética, descarbonização, infraestrutura e inovação.

Já a Exposição Internacional do Cimento – ExpoCimento 2025 ocupará um moderno espaço especialmente concebido para acolher as palestras, debates e apresentar o que existe de mais atual e relevante para a produção do insumo e também para as organizações que aplicam sistemas cimentícios.

O II Simpósio Brasileiro de Ciência do Cimento (SBCC 2025) que já está com programação completa. Terá palestras, cursos pré-eventos, sessões técnicas e discussões sobre os avanços da ciência do cimento e as soluções para a descarbonização da indústria.

Os eventos serão marcos na indústria do cimento ao reunir em um único local: congresso, exposição, feira, networking e até uma arena. Às empresas que abraçaram e apoiam essas iniciativas, nosso profundo agradecimento, por acreditar e seguir os valores que definem o desenvolvimento responsável, a economia circular e a sustentabilidade do planeta.

Não deixe de participar desta oportunidade única de poder conferir de perto a evolução dessa indústria centenária e que se reinventa a todo momento no campo produtivo, ambiental e da inovação.

Saiba mais em: https://congressocimento.com.br/

Cimento do futuro será o Portland

Investimento em tecnologia faz a indústria superar os desafios referentes a desempenho e emissão de gases

Em sua palestra na Concrete Show 2019, intitulada “Cimento do Futuro”, o gerente dos Laboratórios da ABCP, Arnaldo Battagin, fez um relato das pesquisas mais relevantes para se chegar a um produto que substitua o cimento Portland em larga escala de consumo, desempenho e, principalmente, com menores emissões de CO2. Até agora, todos os materiais estudados focaram na mitigação do impacto ambiental, mas não conseguiram se tornar viáveis economicamente.

Por outro lado, a indústria de cimento Portland tem agregado cada vez mais inovações, a fim de aumentar o desempenho do material e diminuir as emissões de gases. Com isso, se sobrepõe aos desafios que crescem ano a ano. “Certa vez ouvi em uma palestra que a indústria de cimento teria futuro sustentável se a taxa de inovações fosse maior que a taxa de restrições. O investimento em tecnologia faz o setor superar os desafios referentes a desempenho e agora a tecnologia tem trabalhado para mitigar as emissões e superar as restrições ambientais impostas”, diz.

Adequação às normas

Em 1990, apenas na Europa, havia 19 regulamentações de meio ambiente exclusivas para a indústria de cimento. Em 2010, segundo a estatística mais atualizada, esse número subiu para 635. Para se adequar às normas ambientais, o cimento Portland encontrou no incremento de teores de adições uma fórmula de sucesso. De acordo com Battagin, no futuro a captura de carbono poderá se mostrar mais eficaz, mas por enquanto ela esbarra nas mesmas restrições que dificultam a substituição do Cimento Portland por outro material: a inviabilidade econômica.

Como exemplo, o gerente dos Laboratórios da ABCP citou o cimento desenvolvido a partir de 2007 no Imperial College London, na Grã-Bretanha. Usando silicato de magnésio como ligante, o material foi testado em concreto estrutural e artefatos pré-fabricados de cimento. Em 2010, foi premiado pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) e havia a promessa de que entraria em escala comercial em 2014. No entanto, todo o planejamento foi paralisado. “Apesar do forte apelo tecnológico, esbarrou na questão do custo. No futuro, poderá vir a ocupar um nicho de mercado”, afirma Arnaldo Battagin.

Outro exemplo é o de um cimento desenvolvido há mais de 20 anos nos Estados Unidos, com comportamento que se assemelha à cerâmica. Testado na estabilização de resíduos radioativos e como selante de poços petrolíferos, o material também não alcançou competitividade comercial para substituir o cimento Portland. Atualmente, desponta como um produto para uso restrito na construção civil.

Novos produtos

Arnaldo Battagin também relatou outros cimentos que tendem a se tornar nichos de mercado, como o cimento com nanotubos de carbono, o cimento modificado energeticamente (EMC, do inglês energetically modified cement) e o cimento de sulfalominato de cálcio, com tempo de pega de 10 minutos e cuja resistência máxima é atingida nas primeiras 12 horas. “Trata-se de um cimento que possui norma técnica na Europa, mas que a confiança sobre a durabilidade ainda não está madura”, expôs o palestrante.

Para finalizar, Battagin concluiu sua fala com a seguinte reflexão: “Nenhum cimento ainda consegue competir com o cimento Portland em larga escala. Graças ao cimento Portland, um quilo de concreto custa menos que um litro de água. Por isso, por longo tempo, continuará como produto-chave para a indústria da construção civil. Não significa que não buscará atingir menores níveis de emissão de gases, o que virá através do clínquer coprocessado e de maiores níveis de adições. É o cenário que se desenha até 2050, pelo menos.”

Fonte: Massa Cinzenta / Cia de Cimento Itambé

Texto baseado na palestra “Cimento do Futuro”, do gerente dos Laboratórios da ABCP, Arnaldo Battagin, durante a Concrete Show 2019.