Resíduos: você sabe para onde vai tudo isso?

Cerca de 80% da população brasileira vive em áreas urbanas e cada brasileiro produz 383 kg de resíduos domésticos por ano. Além disso, o processo produtivo gera anualmente mais 58 milhões de toneladas de resíduos industriais. Todos esses resíduos (urbanos, industriais e agrícolas) podem substituir matérias-primas para a geração de energia térmica na fabricação de cimento, por meio da técnica do coprocessamento, atividade atualizada pela Resolução Conama 499/20.

O coprocessamento contribui para uma destinação correta e segura dos resíduos, impedindo que sejam descartados no ambiente, em aterros e lixões.

O vídeo, produzido pelo SNIC e pela ABCP, mostra como a indústria do cimento pretende, com o coprocessamento, reduzir 30% de suas emissões de CO2 e substituir 55 milhões de toneladas de combustíveis fósseis até 2050.

Assista ao vídeo (1 minuto) para saber mais:

Resolução Conama 499/20

Nova resolução federal sobre coprocessamento reflete adequação da legislação ao conceito de economia circular e uso sustentável dos recursos naturais

O Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) aprovou em reunião plenária no dia 28/09/2020 e publicou no “Diário Oficial da União” em 06/10/2020 a Resolução Conama 499/20, que dispõe sobre o licenciamento da atividade de coprocessamento de resíduos em fornos rotativos de produção de clínquer.

A nova resolução – que revoga a Resolução 264, em vigor por mais de 20 anos – reconhece o amadurecimento do conhecimento sobre as operações do coprocessamento e reflete uma adequação da legislação aos conceitos de economia circular, economia de baixo carbono e uso sustentável dos recursos naturais.

A Resolução 499/20 deverá impulsionar o coprocessamento dos mais variados resíduos, todos realizados de forma segura, controlada e integralmente alinhada com os objetivos do País, especialmente no que se refere à PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) e ao Programa Nacional Lixão Zero.

As principais inovações da nova resolução incluem melhorias visando modernizar e agilizar o processo de licenciamento, aumentar a eficiência e eficácia dos controles e da segurança jurídica e permitir o aumento da utilização de combustíveis alternativos, particularmente os resíduos sólidos urbanos.

As principais inovações são:

  • Controle do processo de combustão pelo THC.
  • Permissão para coprocessamento de vários materiais, como os medicamentos, materiais vencidos ou fora de especificação, além de permitir o coprocessamento de resíduos de saúde que tenham passado por autoclavagem ou descontaminação biológica.
  • Exclusão dos critérios de licenciamento dos materiais listados no anexo II, que abrangem principalmente as biomassas, além dos resíduos provenientes do processo de triagem das cooperativas e associações de catadores e triadores de materiais recicláveis submetidos a alguma forma de separação prévia de resíduos recicláveis, e que atendam aos requisitos constantes do forno já licenciado para coprocessamento de CDR.
  • Exclusão do termo organoclorados e inclusão de lista com limites para poluentes orgânicos persistentes baseados nas convenções de Estocolmo e Basiléia e no Regulamento Europeu 1021 de 2019.
  • Licenciamento do forno: inclusão de resíduos baseada no conceito de equivalência.
  • Permissão de coprocessamento de resíduos não substitutos de matérias-primas e combustíveis, desde que comprovado o ganho ambiental.
  • Monitoramento contínuo de MP, SOx, NOx, O2 e THC, podendo ser on-line, de acordo com exigência dos órgãos ambientais.
  • Redução do limite de emissão de Material Particulado.
  • Inclusão dos limites para os parâmetros: SOx, NOx e dioxinas e furanos.

 

Leia aqui a Resolução Conama 499/20.

 

Brasil tem tudo para ser referência em economia circular

Em entrevista à CNI, por ocasião da ENAI 2020, presidente da ABCP e SNIC, Paulo Camillo, destaca o papel da indústria no novo modelo de desenvolvimento

A economia circular, modelo que alia desenvolvimento econômico ao melhor uso de recursos naturais, é vista com seriedade pela indústria brasileira. Tratada no Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a economia circular é entendida como uma oportunidade que concilia o uso mais eficiente dos recursos ao aumento da competitividade da indústria.

Pesquisa da CNI feita em 2019 mostra que 76,4% das indústrias brasileiras adotam alguma prática de economia circular, mas 70% delas nunca tinham ouvido falar do tema. O levantamento mostrou que a indústria brasileira tem avançado em práticas como reuso de água, reciclagem de materiais e logística reversa. No entanto, há um enorme potencial a ser explorado para que o país seja protagonista no melhor uso de recursos naturais e em inovação de produtos para ter maior vida útil, além de modelos de negócios que explorem mais novidades, como a virtualização e o compartilhamento de produtos e serviços (acesse aqui o infográfico desta matéria).

O papel da indústria do cimento

Na edição 2020 do ENAI (Encontro Nacional da Indústria), entre 17 e 18 de novembro, a economia circular será novamente objeto de debate no setor industrial e a indústria do cimento tem uma grande contribuição a dar nesse sentido. O setor de cimento há anos encontrou no coprocessamento de resíduos uma fonte alternativa ao coque – subproduto do refino de petróleo – para a produção de energia, que representa 50% dos custos do segmento. Hoje, o nível de substituição do coque por resíduos chega a cerca de 17% e a projeção é chegar a 55% até 2050.

Entre os materiais coprocessados estão cerca de 65 milhões de unidades de pneus por ano e biomassas típicas de cada região, como açaí, casca de arroz, casca de babaçu, cavaco de madeira, além de resíduos industriais e lixo doméstico. “Isso faz com que o Brasil seja o país com a menor emissão de CO2 por tonelada de cimento do mundo”, destaca o presidente da ABCP e do SNIC, Paulo Camillo Penna, entrevistado pela CNI, por ocasião do ENAI 2020.

Paulo Camillo explica que, nos últimos 30 anos, o setor conseguiu reduzir significativamente as emissões de CO2 por tonelada de cimento. Em 1990, emitia 700 quilos de CO2 por tonelada; em 2014, chegou a 564 quilos por tonelada; e hoje emite 520 quilos por tonelada. “O setor está com a meta de reduzir as emissões para 375 quilos de CO2 por tonelada de cimento até 2050, em linha com o Acordo de Paris”, declara o presidente da ABCP. Esse compromisso está no Roadmap Tecnológico do Cimento, lançado em 2019. Para isso, é fundamental estender o uso de resíduos na geração de energia térmica e o setor se articula com os governos estaduais para alinhar normas de licenciamento ambiental com a resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), recentemente aprovada, que estabelece critérios para o coprocessamento de resíduos.

“Precisamos dinamizar o coprocessamento de resíduos, uma prática disseminada em diversos países, que aumenta a competitividade do setor e está integrada à economia circular e à Indústria 4.0. O Brasil é um país que ainda enterra energia”, diz Paulo Camillo. “Precisamos acabar com essa prática. Além disso, a utilização do resíduo doméstico como fonte de energia contribuirá para a erradicação dos lixões, presentes em mais de 3 mil municípios brasileiros, e contribuirá para o aumento da vida útil de aterros sanitários”, acrescenta.

Inscreva-se aqui para participar do ENAI 2020.

Criada a FBRER – Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos

ABCP, Abetre, Abiogás e Abrelpe se unem para viabilizar soluções técnicas e operacionais em prol da destinação mais sustentável do lixo urbano no país

Com a participação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, quatro importantes entidades setoriais – ABCP (cimento portland), Abetre (tratamento de resíduos e efluentes), Abiogás (produção e aproveitamento do biogás) e Abrelpe (limpeza pública) – lançaram nesta terça-feira (02/06/2020), a FBRER (Frente Brasil de Recuperação Energética de Resíduos), que tem como objetivo impulsionar a captação de energia a partir de rejeitos depositados em aterros sanitários. A assinatura do Acordo de Cooperação para Recuperação Energética de Resíduos foi firmada pelas entidades e o MMA em uma reunião virtual da qual participaram mais de 400 pessoas.

A iniciativa é um marco histórico para os esforços de destinação mais sustentável e ambientalmente adequada dos resíduos do Brasil. O acordo de cooperação buscará, entre outras iniciativas, coordenar esforços para a remoção de barreiras regulatórias que dificultam o aproveitamento mais intenso dos resíduos. Além disso, pretende viabilizar projetos para a recuperação energética de resíduos sólidos e promover sua integração ao mercado de energias limpas e renováveis. Isso será possível com a conjugação de esforços multissetoriais para o desenvolvimento de um trabalho institucional e de estudos técnicos, com propostas conjuntas de políticas públicas para a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e das estratégias de recuperação energética dos resíduos orgânicos. O trabalho das entidades, juntamente com os esforços do governo e da sociedade, fará com que as soluções sejam colocadas em prática de maneira mais rápida e com a devida sustentabilidade ao longo do tempo.

O presidente da ABCP e do SNIC, Paulo Camillo Penna, declarou que, após alguns meses de conversas, estava “extremamente satisfeito pelo lançamento da FBRER, que conjuga visões em comum entre quatro grandes associações com enorme abrangência em seus respectivos mercados no Brasil”. Ele lembrou que a indústria brasileira –referência internacional em emissões de CO2 (12% menos que a média global do setor) –  lançou há um ano o Roadmap Tecnológico do Cimento 2020 / 2050, no qual as fábricas procuram formas de substituir o combustível fóssil, no caso, o coque de petróleo, por combustíveis renováveis – especialmente o CDRU (Combustível Derivado de Resíduos Urbanos), pauta deste acordo. E reafirmou a importância do coprocessamento, adotado desde os anos 90, responsável hoje por promover anualmente a destinação correta de 60 milhões de pneus, “o equivalente a 1,3 vezes o perímetro da Terra”, acrescentou.

 

Potencial

Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe, afirmou que o país gera 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, conforme dados do panorama setorial 2018/2019, volume que poderia gerar 14,5 gigawatts-hora por ano de eletricidade – o que equivale a 3% do consumo nacional de energia elétrica.

Para Alessandro Gardemann, presidente da Abiogás, o potencial de aproveitamento alcança 5 bilhões de metros cúbicos de metano por ano. O setor possui cerca de 300 megawatts (MW) de potência instalada, mas essa capacidade poderia se multiplicar se houvesse a destinação adequada dos resíduos. No entanto, afirmou, “apenas 42% do lixo urbano coletado atualmente vai para locais adequados e podem ter algum tipo de processamento. O resto é depositado em lixões, que deveriam ter acabado em 2014, se a Política Nacional de Resíduos Sólidos tivesse sido seguida à risca”.

O investimento em aterros sanitários regionais e na recuperação energética podem eliminar desperdícios e fortalecer a economia circular, afirmou o presidente da Abetre, Luiz Gonzaga. “Com um ano de funcionamento, os aterros que substituirão esses depósitos de lixo a céu aberto estarão aptos a produzir metano e, com as usinas de biogás, podemos ter uma produção elétrica quase dez vezes superior à atual”.

Para Paulo Camillo, a recuperação energética de resíduos reduz passivos ambientais, apoia a geração de empregos e contribui com a saúde pública. No caso da indústria, especificamente, os resíduos podem substituir parte do combustível fóssil – e dolarizado – que alimenta a chama dos fornos, transformando argila e calcário em clínquer (matéria-prima do cimento). “Hoje, apenas 17% da energia térmica para essa finalidade vem de fontes alternativas ao coque”, observa o presidente da ABCP. “Utilizando o lixo, as companhias poderão substituir até 80% do combustível usado hoje no processo produtivo”, completou.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerou que o acordo de cooperação “é um passo significativo para o avanço da questão do resíduo sólido em âmbito nacional”. Ele elogiou as propostas de cada entidade e agradeceu diretamente à ABCP e ao seu presidente pela disposição de sempre colaborar para a solução de problemas. “Assim foi com o advento do óleo no Nordeste e agora com a substituição do coque de petróleo pelos resíduos, com o seu coprocessamento nas indústrias. Os clusters referentes a essa iniciativa são muito importantes para alavancarmos respostas concretas”, disse o ministro.

Assista à live de lançamento da FBRER.

Sima e Sabesp promovem 5° Ciclo sobre Tecnologias de Tratamento de Resíduos

Quase 400 pessoas acompanharam nesta terça-feira (05/05/2020) a videoconferência do “5º Ciclo de Tecnologias de Tratamento de Resíduos Sólidos”, organizada pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (Sima) do Estado de São Paulo, por meio do Comitê de Integração de Resíduos Sólidos (CIRS), e a Sabesp, por meio de sua Diretoria T.

Durante o encontro foram apresentados aspectos legais, tecnologias de processamento, viabilidade técnica e financeira, além dos benefícios ambiental e social no uso do coprocessamento dos resíduos pelas fabricas de cimento.

“Transformar resíduos em recurso é a chave para uma economia circular, tendo a indústria do cimento muito a contribuir na geração de soluções sustentáveis para a sociedade”, comentou o executivo da ABCP, Daniel Mattos.

Atualmente, o Brasil produz 78 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. “A experiência dos países europeus mostra que o aproveitamento energético caminha junto com a reciclagem dos resíduos, as questões são complementares”, complementou o diretor da Votorantim, Eduardo Porciúncula.

“A única maneira de alcançar as metas de crescimento no uso de combustível derivado de resíduos é através do uso conjunto de CDRI e CDRU, de forma a assegurar o desempenho das unidades industriais”, destacou o executivo da Intercement, Alexandre Citvaras.

O encontro foi mediado pelos coordenadores do CIRS, José Valverde e Ivan Mello; e contou também com a participação do secretário executivo da Sima, Luis Ricardo Santoro, e do presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), Paulo Camillo.

“Não tem cabimento jogar fora a quantidade de material servível que estamos desperdiçando, precisamos utilizar todo esse potencial no aproveitamento e amadurecimento de uma economia circular e as soluções passam por diferentes modelagens, de acordo com cada região do Estado”, disse o secretário, Marcos Penido.

Fonte: Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente

Óleo no litoral, o destino dos resíduos retirados das praias

A expectativa é coprocessar ao menos 2.000 toneladas do óleo retirado das praias

Fonte: Estadão – https://marsemfim.com.br/oleo-no-litoral-o-destino-dos-residuos-retirados-das-praias/ – Texto: João Lara Mesquita. Foto: Carlos Ezequiel Vannoni / Agência Pixel Press / Estadão

 

O óleo cru que desde o final de agosto de 2019 passou atingir o litoral brasileiro, sem que ainda se saiba a origem e os responsáveis, já poluiu 980 localidades. Até 20 de dezembro, eram 129 cidades afetadas de 11 Estados brasileiros. Números grandiosos e que crescem dia a dia, com a chegada do óleo ao Rio de Janeiro. Esse óleo já matou 112 animais, a maioria tartarugas marinhas e aves. Está causando um prejuízo incalculável a estuários, manguezais, recifes de corais, entre outros ecossistemas berçários da cadeia alimentar marítima. Além dos prejuízos econômicos para quem sobrevive da pesca e do turismo. Mas o que tem sido feito com os resíduos retirados das praias? Quem é o responsável por administrar esse lixo e recuperar o óleo, que pode servir como combustível, se tratado adequadamente?

Mais de 4.700 toneladas de resíduos de óleo no litoral

Afinal, já são mais de 4.700 toneladas de resíduos retirados de óleo no litoral. A questão é que, sem descarte adequado, os prejuízos ambientais podem ser ainda maiores. Nesse total, têm muito óleo e areia. Mas também equipamentos de proteção pessoal utilizados na limpeza das praias. E ainda lonas e até pedras, entre outros tipos de lixo gerado pelo derramamento. É o que diz o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). Esses resíduos podem contaminar ainda mais o meio ambiente, sem uma destinação correta. Segundo nota do Ibama, a gestão de resíduos sólidos é de responsabilidade de municípios.

Cidades são responsáveis pelo descarte

Em outras palavras, as cidades são as responsáveis pelo descarte ou reaproveitamento desse óleo no litoral. Mas, observa o Ibama, “sem prejuízo das competências de controle e fiscalização dos órgãos federais e estaduais…, bem como da responsabilidade do gerador pelo gerenciamento de resíduos”. Gerador que ninguém ainda sabe quem é. O Ibama, informa a nota, tem realizado vistoria nos locais de armazenamento provisório. O órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), entretanto, não soube informar quanto do total apenas de óleo foi recuperado para outros usos.

Resíduos de óleo no litoral, sem dados consolidadas

“O Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA) requer regularmente via ofício das secretarias estaduais informações sobre quantidade, armazenamento e destinação final dos resíduos. Devido às informações incompletas enviadas pelos Estados, o Ibama ainda não consolidou todos os dados”, afirma a nota. Os resíduos que estão sob gestão do Ibama e da Marinha serão encaminhados a aterros de classe 1, diz. São aterros preparados próprios para resíduos perigosos, com alto potencial de inflamabilidade, toxicidade e corrosividade. O envio dos resíduos para esses aterros é também uma das orientações do Ibama para gestores públicos municipais e estaduais.

Cimenteiras, destinação adequada para os resíduos

“No momento, o GAA está fazendo um trabalho de interlocução direta com os Estados afetados, articulações com o Sindicato Nacional das Indústrias de Cimento (SNIC) e com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) para, oportunamente, realizar a destinação final ambientalmente adequada. Entre outros pontos, o objetivo desses diálogos é tentar reaproveitar o material recolhido. Governos estaduais e prefeituras têm autonomia para optar por outras modalidades de destinação ambientalmente adequadas”, afirma o Ibama. O instituto avalia ainda outras maneiras de reaproveitamento do óleo.

Resíduos oleados, combustível para as cimenteiras

Na indústria cimenteira, esse óleo já está virando combustível. A iniciativa partiu, primeiro, das próprias fabricantes de cimento do País, com unidades produtivas no Nordeste. Daniel Mattos, responsável pelo Núcleo técnico de Coprocessamento da ABCP, diz que a entidade ofereceu ajuda ao MMA, Ibama, Marinha e aos Estados logo no início do derramamento e tem acompanhado as reuniões do GAA. “Diante desse desastre ambiental, a indústria quer contribuir porque pode coprocessar esse óleo”, afirma Mattos.

2.000 toneladas de óleo coprocessadas

A expectativa da ABCP é coprocessar ao menos 2.000 toneladas do óleo retirado das praias. Embora tenha capacidade para coprocessar muito mais, se necessário. Cerca de 30% do total estimado já foi coprocessado, contabiliza o executivo. “O coprocessamento é uma tecnologia pouco divulgada, mas já existe há mais de 30 anos”, diz Mattos, ao explicar como funciona. Na prática, é utilizar resíduos que seriam descartados em aterros para alimentar os fornos das empresas na produção do cimento. Eles substituem o coque, derivado de petróleo, nessa tarefa.

Vantagens do coprocessamento

O coprocessamento traz uma série de vantagens. A economia de recursos naturais não renováveis, no caso o coque, é uma das principais. Hoje, observa Mattos, os resíduos já substituem 17% do total de combustível primário utilizado nos fornos. Percentual que subirá para 35%, em 2030, e 55%, em 2050. É o que planeja a indústria cimenteira brasileira para atender às metas do Acordo de Paris, de manutenção da temperatura abaixo de 2°C, ante os níveis pré-industriais.

25% do lixo pode ser coprocessado

Outra vantagem é o bom aproveitamento de lixo, impedindo que chegue a aterros ou desafogando os existentes. “Quase tudo que não é reciclável e orgânico pode ser coprocessado.” Ou seja, ele diz, 25% do total de lixo pode servir a essa finalidade. Um exemplo é pneu, que descartado a céu aberto vira criatório para mosquitos que transmitem doenças, como a dengue. Em 2017, o setor coprocessou 300 mil toneladas de pneus, metade do que é descartado por ano no Brasil. Naquele mesmo ano, coprocessou 1,15 milhão de toneladas de resíduos diversos.

Coprocessamento, redução de emissão de CO2

“Com esse lixo, as indústrias geram energia e reduzem o passivo dos aterros sanitários.” Importante também é a redução das emissões de gases de efeito estufa, que estão causando a crise climática. Conforme Mattos, em torno de 13% das metas de redução de CO2 do setor estão relacionadas ao coprocessamento. A indústria de cimento tem 64 unidades integradas no Brasil. Dessas, 38 são autorizadas pelos órgãos ambientais a coprocessar resíduos. Das sete fábricas de cimento no Nordeste, cinco já estão recebendo óleo retirado das praias.

Solução da UFBA, transformar o óleo no litoral em carvão

Outra solução para os resíduos oleados retirados das praias vem do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ela é baseada em uma tecnologia inovadora desenvolvida na própria UFBA. Utiliza aditivos, como bioaceleradores e biofinalizadores, não agressivos ao meio ambiente. Eles degradam os resíduos e os transformam em uma espécie de carvão. Zênis Novais, professora de Química Inorgânica da UFBA, explica a receita: a massa oleada é misturada com pó de serragem e solvente, feito de acetona e etanol.

UFBA degrada resíduos em uma hora

Mais fluida, a massa é transferida para uma betoneira, onde são aplicados os aditivos. Em uma hora, os resíduos são degradados e transformados em carvão. “E sem o cheiro forte do óleo. Uma das possíveis aplicações é como carga para massa asfáltica. Pode deixá-la mais resistente. A outra é usar como combustível alternativo, inclusive nos próprios fornos das cimenteiras. É mais fácil de armazenar e transportar. É mais seguro ambientalmente e pode ficar em local aberto porque não é dissolvido pela água.”

UFBA, tecnologia inovadora de compostagem

Originalmente, a tecnologia da UFBA foi desenvolvida para compostagem. Ela consegue degradar em também uma hora resíduos orgânicos, como cascas de coco verde e restos de alimentos, incluindo carnes e gorduras. E transforma tudo em fertilizante orgânico. “Esses químicos fazem o mesmo papel das enzimas, mas muito mais rápido. Reduzimos de cerca de 135 dias para 15 o processo total de compostagem, atendendo a todas as normas para essa prática. Em três anos, já produzimos 35 toneladas de fertilizantes, que distribuímos gratuitamente para programas de hortas em escolas públicas, projetos da própria UFBA e também para hortas de presídios”, ressalta a professora Zênis Novais.