
Comunidade da Construção
O movimento estabelece um modelo de articulação entre construtoras, projetistas, universidades, fabricantes e fornecedores para transformar experiências de obra e debates técnicos em conhecimento compartilhado.
Portal Cimento Brasil
A construção civil brasileira convive com um desafio de grandes proporções: ampliar a produção de moradias e edificações ao mesmo tempo em que precisa elevar a produtividade, reduzir desperdícios, melhorar a qualidade das obras, enfrentar a escassez de mão de obra qualificada e incorporar critérios cada vez mais rigorosos de desempenho e sustentabilidade.
O desafio habitacional torna essa equação ainda mais relevante. O déficit brasileiro é de 5,77 milhões de moradias (Fundação João Pinheiro, 2024) e a demanda gerada pelo crescimento das cidades exige produção em escala. Nesse ambiente, sistemas construtivos racionalizados e industrializados assumem papel estratégico, pois permitem substituir parte da lógica artesanal do canteiro por processos planejados, repetíveis, controláveis e de maior produtividade.
Sob este aspecto, a indústria brasileira do cimento, por meio da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), desenvolve uma atuação que vai além do fornecimento do material. A entidade trabalha para fomentar sistemas construtivos à base de cimento, aproximando fabricantes de materiais e equipamentos, construtoras, incorporadoras, projetistas, universidades, laboratórios, entidades técnicas e profissionais.
O trabalho envolve desenvolvimento e difusão de conhecimento, capacitação, elaboração de manuais e boas práticas, normalização técnica, pesquisas, acompanhamento de obras e criação de ambientes colaborativos para identificação de problemas e desenvolvimento conjunto soluções.
Entre as iniciativas que representam a busca por soluções com mais qualidade destacam-se três projetos: Comunidade da Construção, Grupo Parede de Concreto e Comunidade da Alvenaria. Embora tenham surgido em momentos diferentes e possuam características próprias, os três compartilham uma premissa: o ganho de desempenho requer a integração de toda a cadeia produtiva e o tratamento da edificação como sistema.
Três projetos, uma estratégia para transformar a cadeia
Os três projetos citados representam diferentes momentos de uma mesma trajetória conduzida pela ABCP: utilizar conhecimento técnico, cooperação e integração da cadeia produtiva para aumentar a competitividade dos sistemas à base de cimento. A principal contribuição da indústria do cimento, nesse contexto, não está no fornecimento do insumo básico das edificações. Está em articular conhecimento, desenvolver mercado, estimular a normalização, qualificar profissionais e aproximar os diferentes agentes responsáveis pelo desempenho final da construção.

O movimento estabelece um modelo de articulação entre construtoras, projetistas, universidades, fabricantes e fornecedores para transformar experiências de obra e debates técnicos em conhecimento compartilhado.

A metodologia segue a mesma lógica da Comunidade, porém aplicada a um sistema específico, contribuindo para transformar uma tecnologia em um dos principais sistemas construtivos utilizados na produção habitacional brasileira.

A iniciativa atualiza a experiência da produção coletiva para um novo cenário, no qual produtividade, industrialização, sustentabilidade, qualidade, digitalização e escassez de mão de obra tornam ainda mais necessária a integração entre todos os agentes.
Criada em 2002 por iniciativa da ABCP em parceria com ABESC (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem) e IBTS (Instituto Brasileiro de Telas Soldadas), a Comunidade da Construção tornou-se uma das principais experiências brasileiras de articulação da cadeia produtiva da construção civil. Ativa ainda hoje, sua missão é fortalecer técnica e gerencialmente os sistemas construtivos à base de cimento, com ênfase em produtividade, qualidade e tecnologia.
A Comunidade estrutura-se em polos e ciclos regionais, frequentemente em parceria com os Sinduscons. Em sua fase de maior expansão territorial, esteve presente em cidades das regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste, destacando-se capitais como Recife, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória, Brasília e Goiânia.
Essa distribuição permite que o conhecimento fosse produzido e aplicado de maneira descentralizada: problemas identificados nas obras de determinada região podiam gerar estudos, programas de capacitação ou ferramentas posteriormente disponibilizados para todo o mercado.
A iniciativa reúne construtoras, fabricantes de materiais, projetistas, prestadores de serviços, universidades, entidades setoriais, consultores e outros agentes, estabelecendo um ambiente colaborativo para identificação de gargalos, desenvolvimento de soluções e disseminação de conhecimento.
A metodologia de trabalho fundamenta-se na troca de conhecimento e na aplicação prática. Os participantes identificam desafios dos sistemas construtivos, desenvolvem soluções, testam procedimentos em obras, mensuram resultados e transformam o aprendizado em ativos de conhecimento.
Entre as diferentes tecnologias trabalhadas pela iniciativa, tiveram destaque especial no segmento de edificações os sistemas alvenaria estrutural com blocos de concreto, alvenaria de vedação racionalizada com blocos de concreto e revestimentos de argamassa, embora muitos outros temas tenham sido objeto de estudo.
O Grupo Parede de Concreto começou a ser estruturado em 2007 a partir de uma articulação liderada pela ABCP, inicialmente em conjunto com a ABESC e o IBTS. O ponto de partida incluiu missões técnicas ao Chile e à Colômbia, países que já utilizavam amplamente a tecnologia das paredes moldadas in loco.
A partir dessas experiências, construtoras, fornecedores, laboratórios, projetistas e entidades passaram a trabalhar conjuntamente para adaptar, desenvolver e consolidar o sistema no mercado brasileiro. Posteriormente, a cadeia expandiu-se para fabricantes de fôrmas, concreteiras, cimenteiras, empresas de aditivos, telas soldadas, equipamentos, esquadrias, instalações e serviços especializados.
O crescimento foi expressivo. Em 2024, o Grupo já reunia mais de 150 empresas e entidades interessadas na tecnologia. Diferentemente de um projeto organizado por polos geográficos, o Grupo Parede de Concreto possui abrangência nacional, reunindo agentes da cadeia e difundindo tecnologia para construtoras que atuam em diferentes regiões brasileiras.
O modelo está baseado em trabalho colaborativo entre os diversos componentes do sistema. Isso envolve a identificação de gargalos técnicos; formação de grupos de trabalho; apoio à normalização técnica e à capacitação de projetistas e construtores; treinamento de equipes de execução; intercâmbio com experiências internacionais; produção de publicações técnicas; realização de workshops; e disseminação de cases e boas práticas. O Grupo teve participação importante na organização do conhecimento que acompanhou a consolidação da ABNT NBR 16055 – Parede de concreto moldada no local para a construção de edificações, posteriormente revisada, criando um referencial técnico específico para projeto e execução.
No sistema Parede de Concreto, paredes estruturais são concretadas in loco por meio em fôrmas, incorporando estrutura e vedação em uma mesma operação. Armaduras, instalações e outros componentes são previamente posicionados, permitindo que sucessivos conjuntos de paredes sejam produzidos segundo ciclos repetitivos. É uma mudança importante em relação ao canteiro convencional: em vez de uma sequência extensa de serviços independentes, busca-se estabelecer uma linha de produção da edificação. O método traz muitas vantagens: elevada velocidade de execução; produção em escala; padronização; redução da dependência de mão de obra artesanal; redução de desperdícios e entulho; controle dos processos; previsibilidade de prazo; durabilidade; e repetibilidade e ganho de produtividade.
A tecnologia ganhou especial relevância a partir de 2007 e acompanhou a expansão da habitação de interesse social no Brasil. Em 2026, estima-se que aproximadamente 60% das habitações produzidas no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida utilizem paredes de concreto. Para construtoras e incorporadoras, sua maior vantagem aparece principalmente em empreendimentos com repetitividade e escala, nos quais o investimento em fôrmas, planejamento e engenharia de produção pode ser diluído por grande número de unidades. Para a política habitacional, isso representa capacidade de produzir moradias rapidamente e em grande volume, combinando produtividade, padronização e controle de qualidade. O sistema torna-se, portanto, uma ferramenta particularmente adequada para programas que precisam conciliar escala, prazo, custo e desempenho.
A Comunidade da Alvenaria representa uma nova etapa dessa estratégia de integração. Proposta em 2026 por ABCP, Bloco Brasil (fabricantes de blocos) e ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural), a iniciativa parte da percepção de que o desenvolvimento da alvenaria exige uma visão holística, que ultrapasse cada componente ou especialidade individualmente.
O projeto nasce em um cenário marcado pelo aumento da demanda por obras, necessidade de maior produtividade, escassez de pessoal e exigência por construções mais rápidas, sustentáveis e com melhor desempenho. Seu foco é a alvenaria com blocos de concreto entendida como sistema, reunindo fabricantes de blocos e demais materiais, projetistas, construtoras, universidades e entidades técnicas.
Enquanto diferentes organizações representam elos específicos da cadeia, a atuação em grupo procura criar um espaço transversal para discutir a interação entre materiais, projeto, execução, interfaces com outros subsistemas, controle tecnológico, produtividade, qualidade e sustentabilidade.

A proposta inicial é constituir uma rede de conhecimento e cooperação, apoiada pelas entidades proponentes e pela participação dos agentes da cadeia. Sua metodologia é organizada em quatro movimentos:
Do ponto de vista de desempenho, o sistema é servido de referências técnicas e ensaios relacionados a aspectos estruturais, resistência ao fogo, estanqueidade, desempenho térmico e acústico, durabilidade e manutenibilidade.
Para as empresas de construção civil, a principal contribuição da Comunidade da Alvenaria está em transformar uma atividade predominantemente artesanal em um processo de engenharia planejado e mensurável. Para programas habitacionais, o sistema apresenta ainda outra característica estratégica: sua cadeia produtiva possui fabricantes distribuídos pelo país, permitindo mobilizar produção regional, mão de obra e fornecedores próximos às obras.