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SUSTENTABILIDADE

PRIORIDADES

Desenvolvimento industrial sustentável

A sustentabilidade ocupa posição central no desenvolvimento da indústria brasileira do cimento. Esta orientação decorre tanto das características do processo produtivo — intensivo em energia e responsável por emissões decorrentes da transformação do calcário em clínquer — quanto da importância do cimento e do concreto para a habitação, o saneamento, a mobilidade, a infraestrutura e o desenvolvimento urbano.

Nas últimas décadas, o setor estruturou uma trajetória contínua de redução de emissões, eficiência energética, substituição de combustíveis fósseis, aproveitamento de resíduos, redução do teor de clínquer nos cimentos e desenvolvimento de soluções construtivas mais eficientes.

Essa trajetória parte de uma visão abrangente: a descarbonização não deve se limitar à fábrica. Ela deve envolver todo o ciclo de vida das construções, desde a extração e o processamento das matérias-primas até o projeto, a execução, o uso, a manutenção, a reutilização e o fim da vida útil das edificações e das obras de infraestrutura.

Nesse contexto, o cimento é parte de uma cadeia ampla e a redução das emissões depende da combinação entre: eficiência no processo industrial, redução da relação clínquer/cimento, substituição de combustíveis fósseis, ampliação do coprocessamento, utilização de energia elétrica renovável, desenvolvimento de concretos de menor pegada de carbono, otimização estrutural e redução do consumo de materiais, industrialização da construção, aumento da vida útil das obras, circularidade dos materiais, captura, uso e armazenamento de carbono,  remoções e compensações de emissões residuais.

Roadmap Tecnológico do Cimento

O marco de 2019

Em abril de 2019, a indústria brasileira lançou o Roadmap Tecnológico do Cimento, elaborado pelo Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) e pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), com participação de instituições nacionais e internacionais.

O documento representou uma iniciativa pioneira entre os setores industriais brasileiros ao estabelecer uma estratégia de longo prazo para reduzir a intensidade de carbono da produção de cimento até 2050. O Roadmap estimou a possibilidade de reduzir em mais de 30% as emissões específicas do setor, mesmo partindo de um nível de emissão já inferior à média mundial (veja Indústria).

O Roadmap de 2019 organizou a trajetória de descarbonização em quatro grandes alavancas (veja o quadro abaixo).

Adições e redução do fator clínquer

O clínquer, componente intermediário do cimento, concentra a maior parcela das emissões do processo produtivo. Uma das principais estratégias do setor consiste, portanto, em reduzir a quantidade de clínquer para produzir cada tonelada de cimento. Isso é feito pela adição tecnicamente controlada de materiais como: escórias granuladas de alto-forno, materiais pozolânicos, cinzas, filer calcário, argilas calcinadas e outros materiais.

Combustíveis alternativos e coprocessamento

A segunda alavanca é a substituição de combustíveis fósseis, especialmente o coque de petróleo, por biomassas e resíduos por meio do coprocessamento, que são previamente preparados e autorizados pelos órgãos ambientais. Além de diminuir as emissões fósseis, essa solução oferece destinação ambientalmente adequada para resíduos que não podem ser reciclados ou reutilizados, evitando sua disposição em aterros ou locais inadequados.

Eficiência térmica e elétrica

A modernização de fornos, moinhos, sistemas de ventilação, resfriadores, queimadores e controles digitais permite produzir cimento com menor consumo de energia. A indústria brasileira já possui unidades modernas e eficientes. Entretanto, o avanço da automação, da inteligência artificial, da manutenção preditiva e da gestão energética ainda pode proporcionar ganhos adicionais.

Captura, uso e armazenamento de carbono

A captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS, sigla para Carbon Capture, Utilisation and Storage) é indispensável para neutralizar as emissões residuais do processo. Isso ocorre porque parte significativa delas ocorre pela própria reação química de calcinação. O CCUS deve ganhar maior relevância a partir de 2040, conforme a evolução tecnológica e regulatória, a existência de infraestrutura para transporte e armazenamento e a redução dos custos de implantação.

Roadmap Net Zero

Rumo à neutralidade na construção

A evolução do debate climático levou a indústria a ampliar o Roadmap de 2019. O novo Roadmap Net Zero da Indústria Brasileira do Cimento, apresentado durante a COP30, incorporou o compromisso de alcançar a neutralidade climática até 2050. O novo documento mantém as alavancas industriais anteriores, mas expande sua abrangência. A estratégia deixa de observar apenas as emissões da produção do cimento e passa a considerar toda a cadeia do cimento e do concreto.

Entre as novas frentes estão:

  • Utilização crescente de eletricidade renovável
  • Descarbonização dos transportes e da logística
  • Eficiência na produção e no uso do concreto
  • Redução da quantidade de materiais por unidade construída
  • Maior durabilidade das estruturas
  • Industrialização e racionalização dos sistemas construtivos
  • Circularidade e reciclagem
  • Captura, utilização e armazenamento de carbono
  • Remoções e compensações de emissões residuais
  • Soluções baseadas na natureza — SbN

Entre 1990 e 2023, a indústria brasileira reduziu suas emissões específicas em 17%, passando de 700 para 578 kg de CO₂ por tonelada de cimento — valor bem inferior à média mundial (598 kg  CO₂/t). Neste mesmo período, a indústria nacional conseguiu reduzir sua intensidade térmica em 13%, passando de 4.214 MJ/t para 3.675 MJ/t de clínquer. Aumentou também a participação de matérias-primas alternativas substitutas de clínquer de 16% para 29% e incrementou a utilização de combustíveis alternativos em substituição aos fósseis não renováveis de 5% para 30%. Esses avanços a tornam uma das indústrias mais ecoeficientes do planeta e uma referência na redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE).

Vale lembrar que, em escala global, as emissões de CO₂ da indústria do cimento representam cerca de 7% das emissões totais produzidas pelo homem. No Brasil, em função de ações que vêm sendo implementadas há mais de 50 anos pelo setor e do próprio perfil das emissões nacionais, essa participação é de um terço da média mundial: cerca de 2,3%. 

Em 2024, 30% da matriz energética do setor já era composta por combustíveis mais sustentáveis. No mesmo ano, foram coprocessadas 2,928 milhões de toneladas de resíduos, evitando a emissão de aproximadamente 2,8 milhões de toneladas de CO2 e contribuindo para a economia circular. 

Direção estratégica

A trajetória setorial está orientada por três referências principais:

  • Acelerar as soluções já disponíveis comercialmente, como redução do fator clínquer, uso de combustíveis alternativos, eficiência energética, eletricidade renovável e desenvolvimento de concretos de menor pegada.
  • Ampliar tecnologias de transição, infraestrutura para combustíveis derivados de resíduos, argilas calcinadas, digitalização, novos ligantes, projetos estruturais otimizados e demonstrações de captura de carbono.
  • Alcançar neutralidade climática, com implantação em escala de CCUS, remoções e compensações para as emissões residuais que não puderem ser eliminadas.

Responsabilidades compartilhadas

Mas o Roadmap Net Zero adverte que a neutralidade dependerá de condições externas ao setor, como:

  • Disponibilidade regular de resíduos e biomassas sustentáveis
  • Infraestrutura de triagem e preparação de combustíveis
  • Redes elétricas de baixo carbono
  • Financiamento climático
  • Regulamentação do mercado de carbono
  • Infraestrutura para captura, transporte e armazenamento de CO₂
  • Compras públicas sustentáveis
  • Normas técnicas orientadas ao desempenho
  • Reconhecimento do carbono ao longo do ciclo de vida das construções

> Saiba mais sobre Mudanças climáticas e políticas públicas nacionais

Coprocessamento

Economia circular aplicada à indústria

O coprocessamento consiste no aproveitamento de resíduos e biomassas como substitutos parciais de combustíveis ou matérias-primas na fabricação de clínquer. Os fornos de cimento reúnem condições específicas para essa aplicação, como temperaturas muito elevadas, longo tempo de permanência dos gases, incorporação das cinzas minerais ao clínquer e ausência de geração de um novo resíduo sólido ao final do processo, entre outros benefícios.

Os materiais que servirão como combustível alternativo passam por seleção, caracterização, preparação, controle de qualidade e licenciamento ambiental. Não se trata, portanto, do recebimento indiscriminado de resíduos. A Resolução Conam nº 499/2020 estabelece resíduos proibidos, parâmetros operacionais, testes, limites de emissão e condições para autorização da atividade.

Entre os materiais que podem ser utilizados, desde que atendam às exigências técnicas e ambientais, estão: pneus inservíveis, resíduos industriais não recicláveis, plásticos, papéis e tecidos sem viabilidade de reciclagem, borras e resíduos oleosos, combustíveis derivados de resíduos, resíduos comerciais, biomassas agrícolas e florestais, caroços, cascas e fibras vegetais, serragem e cavacos de madeira, e resíduos com conteúdo mineral apto à substituição de matérias-primas.

O coprocessamento gera benefícios simultâneos:

  • Reduz o consumo de coque de petróleo e outros combustíveis fósseis.
  • Diminui emissões líquidas de gases de efeito estufa.
  • Evita a disposição de resíduos em aterros.
  • Reduz passivos ambientais.
  • Recupera energia e conteúdo mineral.
  • Contribui para sistemas de logística reversa.
  • Pode gerar renda para cooperativas, produtores rurais e comunidades fornecedoras de biomassa.
  • Aumenta a segurança energética das fábricas.

O processo deve respeitar a hierarquia prevista na PNRS. A não geração, a redução, a reutilização e a reciclagem devem ser priorizadas. O coprocessamento é especialmente indicado para a fração que não possui viabilidade técnica, ambiental ou econômica de reciclagem.

> Acesse o Panorama do Coprocessamento 2025 (Ano base 2024)

> Saiba mais sobre a Estrutura legal e regulatória do coprocessamento.

Modelo

Nossa trajetória é referência

A indústria brasileira do cimento construiu uma trajetória consistente de sustentabilidade e apresenta condições diferenciadas no cenário internacional: cimentos com elevado uso de adições, matriz elétrica majoritariamente renovável, disponibilidade de biomassas, experiência em coprocessamento e capacidade técnica acumulada.

O Roadmap Tecnológico de 2019 organizou as primeiras metas setoriais de longo prazo. O Roadmap Net Zero ampliou essa visão, incorporando toda a cadeia do cimento e do concreto e estabelecendo a neutralidade climática até 2050 como direção estratégica.

O desafio agora é transformar compromissos em projetos de escala. Isso envolve acelerar medidas já disponíveis — eficiência, adições, combustíveis alternativos e otimização do concreto — e criar condições para tecnologias estruturantes, especialmente captura de carbono.

O coprocessamento ocupa posição central nessa agenda porque reúne três objetivos: redução das emissões fósseis, destinação ambientalmente adequada de resíduos e promoção da economia circular. Sua expansão, porém, depende da integração entre os diferentes níveis de governo, órgãos ambientais, municípios, empresas de resíduos, cooperativas e fábricas de cimento.

A agenda de sustentabilidade da indústria, além de reduzir a pegada de carbono, contribui para transformar a forma como o Brasil planeja, constrói, utiliza e mantém suas cidades e sua infraestrutura. A descarbonização do cimento, do concreto e da construção representa uma oportunidade de modernização industrial, inovação tecnológica, melhoria ambiental e desenvolvimento econômico de longo prazo.

Linha do tempo

Ações e conquistas do setor nas últimas décadas

Adições e descarbonização

Início de uma das mais importantes estratégias de redução de emissões de carbono, representada pela ampliação do uso de adições minerais ao clínquer (escória de alto-forno e materiais pozolânicos) e lançamento do cimento Portland composto. Além de reduzir o consumo de clínquer, essa inovação promoveu o aproveitamento de coprodutos industriais, diminuiu o consumo de energia e consolidou uma trajetória de descarbonização que colocaria o Brasil entre os países com menor intensidade de carbono na produção de cimento.